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Hábitos que fazem mal ao ouvido

Você certamente já fez o tradicional teste das letrinhas para verificar se está enxergando direito. Mas será que já fez algum teste para saber se está escutando bem?

Ao contrário do que ocorre com a visão, quando geralmente somos os primeiros a notar algo de errado, os problemas de audição costumam ser percebidos de imediato por quem convive conosco. Se sua família ou seus amigos reclamam que você sempre deixa o volume da TV alto demais ou que você vive gritando em vez de falar normalmente, é um indício de que pode haver algum problema. Se você acha difícil acompanhar uma conversa em um lugar que haja barulho, principalmente com mulheres ou crianças (que em geral possuem vozes mais agudas), ou não costuma escutar quando a campainha ou o telefone tocam, esses também são sinais de que algo pode estar errado. O ponto em comum nas situações descritas: você escuta, mas não consegue entender direito o que escutou. É o início da surdez.

Normalmente, a reação de uma pessoa que passa por isso é de resignação ou negação do problema, atribuindo a perda da audição ao envelhecimento ou a outro processo natural. “No Brasil, algumas pesquisas mostram que mesmo pessoas com fortes indícios de surdez, especialmente na terceira idade, demoram em média seis anos para procurar o médico”, diz o médico Luiz Carlos Alves Souza, presidente da Associação Brasileira de Otologia. Um dos principais motivos dessa demora é o preconceito que ainda existe contra a surdez e as questões auditivas. Enquanto os problemas de visão são socialmente aceitos e considerados normais – os óculos podem até mesmo dar um charme –, uma pessoa que utiliza o aparelho auditivo quase sempre é encarada como portadora de uma deficiência. Uma imagem equivocada, segundo os médicos. “Hoje em dia, quem procura o médico otorrinolaringologista tem acesso a diversos tipos de tratamento, desde medicamentos até aparelhos de audição miniaturizados que praticamente devolvem a plena audição aos pacientes”, afirma Souza.

Se você estiver perdendo a audição, um conselho dos médicos: quanto antes procurar a ajuda de um especialista, melhor. As perdas leves podem se agravar se não forem tratadas. As pessoas afetadas, além de ter a qualidade de vida prejudicada, são vítimas de diversos tipos de transtornos psicológicos que vão desde frustração, medo e vergonha até solidão, depressão e isolamento social, sobretudo quando os problemas aparecem de forma brusca na terceira idade.

Surdez congênita

A surdez é um dos problemas físicos mais freqüentes na população mundial. Segundo estimativas do Instituto Britânico de Pesquisas Auditivas, há no mundo 560 milhões de pessoas com dificuldades ou perda de audição, que costumam vir acompanhadas de zumbidos ou ruídos no ouvido, vertigem, dor de ouvido e outros sintomas. De cada 1 000 crianças que nascem, em média quatro sofrem de surdez congênita. No Brasil, estima-se que 15 milhões de pessoas tenham algum tipo de dificuldade em ouvir, sendo que 350 mil são totalmente surdas. “Cerca de 70% de nossos idosos sofrem de algum problema auditivo. A maioria são pessoas de baixa escolaridade e pouco poder aquisitivo”, afirma Souza. Mas, segundo uma pesquisa realizada pela Universidade Luterana do Brasil, em Porto Alegre, 26% dos entrevistados sofriam de alguma forma de diminuição na capacidade de ouvir independentemente da faixa etária.

A surdez pode resultar de várias causas. Algumas têm a ver com problemas na transmissão do som através do ouvido devido a algum bloqueio das ondas sonoras nos ouvidos externo e médio. Isso acontece quando o pavilhão (a “concha” que forma a orelha) ou o canal auditivo sofrem deformações, traumas, inflamações e tumores. Obstruções do canal por acúmulo de cera ou um crescimento anormal do osso na cavidade do ouvido médio também podem causar danos. A outra classe principal de problemas são os chamados neurossensoriais, em que a causa está no ouvido interno ou em outras estruturas centrais, como o nervo auditivo. Por fim, pode haver também casos que misturam tudo isso – o som tem dificuldade de atravessar o ouvido e também não consegue ser transmitido corretamente para o cérebro.

Muitas vezes, a surdez é congênita, ou seja, existe desde o nascimento. Sua causa pode ser hereditária ou não. Doenças da mãe na gravidez (como rubéola, sarampo, varicela, diabetes e alcoolismo), medicamentos que estavam sendo tomados e complicações de parto (nascimento prematuro, falta de oxigênio) podem deixar o bebê surdo.

Por trás de metade dos problemas auditivos congênitos há algum fator genético. A surdez é mais comum em certas famílias devido a alterações e mutações de determinados genes. Essas alterações no DNA são herdadas de um ou dos dois pais e podem ser transmitidas para os descendentes, o que explica a existência de famílias com vários membros que têm dificuldade de audição. Até agora os cientistas já catalogaram mais de 400 tipos de surdez hereditária, mas ainda se sabe muito pouco a respeito dos genes que as provocam. Na última década, os geneticistas localizaram mais de 100 deles e descreveram a estrutura de 50 fragmentos genéticos que causam problemas em nível celular e bioquímico, principalmente na cóclea. Os cientistas conseguiram informações úteis a respeito de dez deles. Um dos genes mais estudados é o Cx26, com mais de 60 alterações identificadas. Ele é responsável por 40% dos casos de surdez profunda congênita.

A versão sadia desse gene controla a síntese de conexina, uma proteína que tem um papel importante na comunicação celular. Outro gene, localizado no DNA das mitocôndrias – as centrais energéticas das células –, parece ser responsável por 20% das surdezes familiares suaves e severas. É o gene rRNA-12S.

Essa linha de pesquisa está permitindo a criação de testes genéticos para a detecção precoce da surdez em recém-nascidos de famílias com transtornos auditivos, assim como adotar ações educativas o mais precocemente possível. No caso de alteração no gene rRNA-12S, sua identificação pode inclusive prevenir o ensurdecimento. Seus portadores têm predisposição para desenvolver uma surdez profunda caso tenham sido tratados com tipos específicos de antibiótico. Evitando o contato com esses remédios, afasta-se o fantasma desse mal. “Conhecemos vários outros defeitos no DNA, além desses”, diz Souza. “Muito em breve esses testes serão de rotina na investigação da surdez infantil e mesmo em adultos, que podem desenvolver uma surdez genética mais tarde na vida.”

Teste da orelhinha

Não só de exames genéticos é feito o diagnóstico precoce da surdez ou de outros problemas relacionados. Hoje já está bastante disseminado o exame baseado em otoemissões acústicas – o “teste da orelhinha”. Um aparelho que emite sons de cliques é colocado bem próximo do ouvido do paciente. Os “ecos” que esses sons produzem ao atravessar a cóclea são captados por uma sonda e analisados por um computador. Dessa forma, é possível verificar se o ouvido interno está processando corretamente os sons que chegam até ele. “Como é um exame rápido e simples que não depende da colaboração do paciente, ele é ideal para detectar problemas auditivos em recém-nascidos”, diz Liliane Desgualdo Pereira, chefe do Departamento de Fonoaudiologia da Escola Paulista de Medicina, em São Paulo. “Em várias cidades brasileiras, há leis que obrigam esse teste em todos os bebês. Apesar da sua alta eficiência e baixo custo (cerca de 40 reais), parece que essa foi mais uma das leis que não pegaram”, diz Souza.

As vantagens desse exame são enormes. Antes, só era possível detectar problemas de surdez em crianças a partir dos 2 ou 3 anos. Com as otoemissões acústicas, é possível realizar a verificação já aos 2 meses de idade. Essa diferença permite realizar o tratamento mais adequado, seja ele médico ou cirúrgico, tão rápido quanto possível, explica Liliane. “Se a criança não escuta direito, ela vai ter problemas em aprender a linguagem ou talvez nem mesmo consiga adquiri-la. Isso se traduz em dificuldades de relacionamento com outras crianças e adultos, o que acaba causando alguns problemas de comportamento.”

O diagnóstico precoce também ajuda a escolher a melhor forma de tratamento. Entre as principais opções nos casos mais avançados estão os aparelhos auditivos e os implantes cocleares. Os aparelhos para surdez são os mais conhecidos e, basicamente, são pequenos dispositivos eletrônicos com um microfone que capta os sons, um amplificador e um pequeno alto-falante que envia o som amplificado diretamente para o canal auditivo. “Atualmente, esses aparelhos estão muito sofisticados e inteligentes. Possuem mecanismos que podem amplificar apenas a fala de uma pessoa, deixando de fora os ruídos do meio ambiente”, explica a fonoaudióloga.

Quando a surdez é profunda, o aparelho auditivo não costuma ser suficiente para o problema. É aí que entram os implantes cocleares. São pequenos aparelhos inseridos cirurgicamente no ouvido, que captam os sons e os transformam em sinais elétricos a ser enviados para o nervo auditivo. Mais uma vez o diagnóstico precoce favorece os melhores resultados. Nos casos envolvendo crianças, que ainda estão aprendendo a falar, o implante coclear pode dar condições de uma vida normal a alguém que estava praticamente condenado a uma surdez quase incapacitante.

Uma pesquisa realizada pela clínica da Universidade de Navarra, na Espanha, acompanhou diversas crianças com surdez profunda que receberam implantes antes dos 3 anos de idade. Cerca de 90% delas, após quatro anos, eram capazes de manter uma conversa com uma voz conhecida sem precisar olhar para o interlocutor – ou seja, sem o auxílio de recursos como a leitura labial. “Além do implante, é necessário muito treinamento auditivo e de linguagem”, explica Liliane. “O índice de sucesso é bastante alto, sendo muito superior ao do uso de aparelhos de surdez em casos severos.”

Outras recomendações

Os médicos contam hoje com um formidável arsenal de técnicas de detecção e tratamento da surdez. O problema, dizem eles, é conscientizar as pessoas a tomar cuidados preventivos. A explicação é simples: de todos os casos de surdez adquirida (que não tem causas genéticas), mais da metade são causados por exposição excessiva ao barulho.

Em nossa sociedade, castigamos tanto nossos tímpanos que podemos chegar ao extremo de acelerar a perda natural da audição devido à idade e nos tornar um pouco mais surdos. Alguns estudos apontam que o número de jovens com deficiência de audição está aumentando em boa parte por causa do alto volume do som em casas noturnas e shows musicais e o uso prolongado de aparelhos como walkman e iPod, que podem superar os 100 decibéis de pressão sonora. Um nível sonoro a partir dos 85 decibéis causa fadiga sonora e, dos 100 decibéis em diante, há o risco de provocar lesões irreversíveis aos ouvidos. Esses níveis podem ser alcançados ou mesmo superados em alguns ambientes de trabalho. Basta sair na rua em grandes cidades, como São Paulo e Rio de Janeiro, para ouvir sons de mais de 85 decibéis apenas com o tráfego. “As cidades e nossa vida se tornaram mais barulhentas, e isso pode contribuir para escutarmos menos”, diz Liliane. “Quanto mais pudermos evitar a exposição desnecessária a sons muito fortes, melhor para nossos ouvidos”, diz Souza.

Fonte: Superinteressante - Adaptação Carlos Nasser